Silvio Santos hipoteca Patrimonio
Silvio montou um império com 34 empresas e faturamento de R$ 4,66 bilhões, preservando sempre a imagem de self-made man, o empreendedor que começou de baixo e venceu na vida graças ao próprio esforço.
www.istoedinheiro.com.br - Por Leonardo Attuch e Carlos Sambrana
A dramática luta de Silvio Santos

A dramática luta de Silvio Santos

Numa atitude inédita, o dono do SBT hipoteca todo seu patrimônio para evitar a quebra do banco PanAmericano. Agora, aos 80 anos, ele lutará para salvar as joias do seu império

Por Leonardo Attuch e Carlos Sambrana

Carlos Sambrana e Cláudio Gradilone, editores da DINHEIRO, analisam o caso Panamericano. Confira abaixo:

Em 1945, quando Getúlio Vargas se preparava para deixar a Presidência, um menino nascido e criado na zona boêmia do Rio de Janeiro iniciou sua carreira como empresário. Senor Abravanel percebeu que poderia ganhar alguns trocados como vendedor, ao se deparar com uma pequena aglomeração no centro do Rio. 

Um senhor já de idade vendia capas de plástico para títulos de eleitor – naquele momento, o Brasil estava prestes a viver a primeira eleição presidencial após 15 anos de getulismo. Senor, filho de imigrantes judeus, decidiu seguir o exemplo do vendedor e, em pouco tempo, transformou-se no camelô mais conhecido do Rio de Janeiro. 

Quando foi pego pela primeira vez por um policial, conseguiu vencê-lo pela simpatia. O guarda, em vez de encaminhá-lo a uma delegacia de menores, deu-lhe o cartão de um amigo na Rádio Guanabara, que promoveria na semana seguinte um concurso para jovens locutores – Senor entrou na disputa e chegou em primeiro lugar. 

De lá para cá, tudo mudou na vida desse garoto. A começar, pelo nome. Senor passou a ser Silvio Santos e se tornou um dos comunicadores mais conhecidos e admirados do Brasil. Comandou programas de grande audiência, adquiriu uma emissora de televisão e se tornou um dos maiores vendedores de eletrodomésticos do País com seu Baú da Felicidade.  

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Silvio Santos, dono do SBT: "O negócio só saiu porque ofereci todos os meus bens em garantia"

Silvio montou um império com 34 empresas e faturamento de R$ 4,66 bilhões, preservando sempre a imagem de self-made man, o empreendedor que começou de baixo e venceu na vida graças ao próprio esforço. Na semana passada, todo o patrimônio construído em 65 anos de trabalho poderia escorrer pelas suas mãos. 

Havia sido dado em garantia num empréstimo de R$ 2,5 bilhões, tomado junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uma entidade privada, capitalizada pelo sistema financeiro, para evitar a quebra do banco PanAmericano. “Foi uma atitude totalmente rara e inusitada para o padrão brasileiro”, disse à DINHEIRO o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

 

Silvio tomou a decisão de abrir mão de todo o seu patrimônio em pouquíssimo tempo, dando um exemplo para todo o Brasil. No dia 14 de setembro, ele foi informado pela diretoria de fiscalização do BC de que havia graves inconsistências nos balanços do PanAmericano – carteiras de crédito vendidas a outras instituições continuavam registradas nos livros do banco, fazendo parte do ativo. 

 

Dois dias depois, Silvio desembarcou em Brasília, para uma reunião emergencial com Meirelles. Soube que havia apenas duas alternativas: a capitalização do banco pelos acionistas controladores ou a intervenção do Banco Central, seguida de liquidação, o que teria consequências dramáticas não só para o empresário, que ficaria com os bens bloqueados, como para o próprio sistema financeiro. 

 

No dia 22 de setembro, Silvio voltou a Brasília, desta vez para uma reunião com o presidente Lula. Disse que buscaria uma saída rápida para o problema. Três semanas depois, em 13 de outubro, os técnicos do BC haviam chegado, finalmente, ao número do rombo do PanAmericano: inacreditáveis R$ 2,5 bilhões. 

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Pela lei, Silvio teria 60 dias para apresentar um plano de recuperação ao BC. Mas, em apenas três semanas, ele chegou a um entendimento com Gabriel Jorge Ferreira, presidente do FGC e ex-chefe da Febraban. “A holding só recebeu os R$ 2,5 bilhões porque eu dei todos os meus bens como garantia”, disse Silvio, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. 

“Atuo há 50 anos no sistema financeiro e nunca vi nada parecido”, reforçou Ferreira, do FGC. No processo de negociação, os dois se tornaram amigos e o presidente do FGC deu a Silvio uma cópia do filme "A felicidade não se compra", um clássico de Frank Capra, rodado em 1946. A analogia com o clássico de Capra é dramaticamente apropriada.

No filme, ambientado na Grande Depressão dos anos 30, nos EUA, o protagonista vivido por James Stewart herda uma instituição financeira. Na iminência da quebra de seu banco, ele decide distribuir seu próprio dinheiro entre os correntistas, demonstrando um incrível desprendimento em relação aos seus bens materiais – de certa forma, a mesma postura assumida por Silvio no momento em que comprometeu seu patrimônio pessoal para não deixar o banco quebrar e prejudicar os correntistas. 

Não se tem notícia de empresários que entregaram seus ativos pessoais para salvar bancos ou empresas. Mas Silvio já havia dado outras demonstrações de ser um homem de negócios diferenciado.

Há anos, ele é o maior pagador de Imposto de Renda do País, embora não apareça nas listas dos dez mais ricos. O desapego pelo patrimônio pode ser fruto da própria história de vida de Silvio. Ao longo das últimas décadas, ele se tornou um exemplo de empreendedor, o homem que começa do zero e não se cansa de criar novos negócios, num permanente recomeçar. Se sempre foi assim, por que seria diferente agora?

 

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A solução, porém, não interessava apenas a Silvio. Em caso de quebra, o FGC teria de arcar com cerca de R$ 1,8 bilhão. Isso porque teria de bancar uma garantia de até R$ 60 mil para os depositantes e também já tinha o compromisso de assumir outros créditos do PanAmericano. 

No atual cenário, mesmo que se discuta se o patrimônio de Silvio dado como garantia vale ou não R$ 2,5 bilhões – o valor contábil é de R$ 2,7 bilhões –, a perda para o FGC deverá ser bem menor. Especialmente porque o empresário se comprometeu a lançar um ambicioso plano de vendas de ativos. “Se alguém vier aqui e pagar R$ 2,5 bilhões, leva o SBT”, declarou o apresentador. “Não precisa pagar nem para mim. Pode ser diretamente para o FGC”. 

Na quinta-feira 11, o bilionário Eike Batista, oitavo homem mais rico do mundo e dono de uma fortuna de US$ 27 bilhões, afirmou que é um candidato à compra do canal de televisão. “A gente olha tudo no Brasil”, disse Eike. Depois, ele negou o interesse, mas Eike é imprevisível.

De todo modo, Santos terá como organizar, com um certo planejamento, sua recuperação empresarial. O empréstimo feito pelo FGC oferece boas condições. Além dos dez anos para pagamento, serão três de carência. A correção do empréstimo será feita pelo IGPM, o que representa um subsídio ao devedor – empresas de primeira linha no Brasil hoje captam pelo CDI, que é mais caro.

Numa conta simples, levando em consideração as taxas do CDI e do IGPM nos últimos dez anos, é possível estimar um subsídio da ordem de R$ 5 bilhões no empréstimo tomado pelo dono do grupo SBT. Com os três anos de carência, ele terá tempo para vender com calma algumas de suas empresas. “Ele tem bons ativos e certamente encontrará interessados”, disse à DINHEIRO o presidente de um grande banco de investimentos. 

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O próprio PanAmericano, capitalizado com os R$ 2,5 bilhões do FGC, tem tudo para ser o primeiro ativo negociado. No primeiro dia após o anúncio da crise, as ações do banco caíram quase 30%. Mas no dia seguinte, os papéis se valorizaram, na expectativa de que Silvio encontre um comprador – talvez a própria Caixa Econômica Federal, que já havia feito um aporte de R$ 739 milhões no banco, em troca de 49% das ações. 

Pelas cotações atuais, o PanAmericano teria um valor de mercado de R$ 1,2 bilhão. A corrida de depositantes, que, no primeiro dia após a crise, provocou saques de R$ 200 milhões, foi estancada. E todos os clientes que pediram o resgate de suas aplicações conseguiram reaver os recursos. 

“Depois do acordo com o FGC, o banco tem R$ 3,8 bilhões em caixa e está numa situação sólida. Isso garante qualquer resgate que venha a ocorrer”, disse à DINHEIRO Celso Antunes da Costa, novo diretor-superintendente do banco, indicado pela Caixa e pelo FGC.

O certo é que Silvio poderá se desfazer de qualquer negócio, mas tentará fazer de tudo para preservar a joia de sua coroa: o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), cuja concessão foi ganha por ele no governo do general Ernesto Geisel. Com programas de auditório populares, Silvio construiu a segunda maior emissora do Brasil, mas o SBT, hoje, atravessa um momento difícil. 

Nos últimos anos, a audiência recuou e o canal perdeu o eterno segundo lugar para a Record, do bispo Edir Macedo. De acordo com dados do Ibope, a participação da Record é de 16,9%, enquanto a do SBT é de 13,2%. Apesar disso, o SBT é também estratégico porque é o motor que move todos os seus outros negócios. 

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Vendedor nato: Silvio Santos, que começou como camelô, no Rio de Janeiro, desenvolveu a arte de comunicador e nunca perdeu o dom de vender. A televisão, muitas vezes, foi o instrumento utilizado por ele para vender outros produtos, como os carnês do Baú da Felicidade

O Grupo Silvio Santos é formado por empresas que atuam em setores completamente distintos, de emissora de televisão a empresa de cosméticos, de lojas de varejo voltada para a classe C a hotel de luxo no Guarujá. A rigor, todos esses negócios orbitam ao redor do SBT, o único negócio que Silvio acompanha de perto. 

O patrão, como é conhecido nos corredores da emissora, usa o canal de televisão para alavancar suas outras empresas. A rede de lojas Baú Crediário, por exemplo, conta com um massivo plano de mídia e vinha ganhando destaque dentro do grupo. No ano passado, Silvio comprou a rede Dudony, do Paraná, com 110 lojas, fazendo com que a Baú Crediário fechasse o ano com 127 unidades.

Outro negócio que tem gerado muita expectativa é o de cosméticos. Em 2006, foi criada a marca Jequiti para bater de frente com empresas de venda direta como Natura e Avon. Desde então, é a companhia que mais cresce dentro do conglomerado. Até setembro, já havia registrado uma alta de 130% sobre o mesmo período do ano passado e deve manter essa mesma média até o fim de 2010, fechando com faturamento de R$ 380 milhões. “Em 2013, vamos faturar R$ 1 bilhão”, disse à DINHEIRO, o diretor-superintendente e principal executivo da empresa, Lásaro do Carmo Junior. 

“Nada muda, a vida da Jequiti continua normal, assim como os planos de investimentos continuam de vento em popa”, diz, referindo-se à dívida do grupo. Não é bem assim. É vital para a companhia a permanência do SBT nas mãos de Silvio. 

Afinal, foi com a ajuda do SBT, que possui um programa com o nome da Roda a Roda Jequiti, no qual consultoras e clientes disputam prêmios, que a empresa multiplicou seu exército de vendedoras. Se, em 2006, contava com 4,1 mil consultoras, em 2009 possuía 117,9 mil e hoje está na casa das 160 mil vendedoras. 

 

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As negociações em Brasília: no dia 22 de setembro, Silvio Santos comunicou ao presidente Lula os problemas no PanAmericano e disse que encontraria uma solução. Antes disso, a Caixa Econômica Federal, presidida por Maria Fernanda Coelho, havia feito um aporte de R$ 739 milhões  

A participação de Silvio no dia a dia da Jequiti reflete o estilo de gestão do apresentador/empresário. “O Silvio dá ideias de produtos e marketing, mas as decisões estratégicas da Jequiti estão sob minha responsabilidade. Tenho total autonomia”, afirma Carmo Júnior. A rigor, em um grupo grande como o de Silvio Santos, é bom que os funcionários tenham essa autonomia. 

Há um mantra no mundo corporativo que defende a profissionalização das empresas e a delegação de poderes. Mas, é bom salientar, o distanciamento excessivo do controlador também é prejudicial. E o próprio Silvio confirma que não olhava para as suas empresas como cuidava do SBT. 

“Ele pode ter criado um império, mas ele não é um homem de negócios”, diz um executivo que o conhece muito bem. “Na verdade, ele é um empreendedor. Sabe criar negócios, mas não sabe administrá-los.” Nessa seara, ele conta com a ajuda de profissionais.  

“Quando tenho dinheiro, abro uma empresa no Brasil. Mas não sou obrigado a ficar sabendo onde é a empresa”, diz Silvio. “Pago os profissionais e eles têm que me dar resultados. E, às vezes, falham. Desta vez, falhou.” Mora aí outro problema do grupo: a falta de foco. Por investir em setores totalmente diferentes, acaba não se concentrando em nenhum negócio como deveria.

Silvio também é conhecido por seus rompantes de humor. Não é segredo nenhum as ocasiões em que ele mudou a programação do SBT sem consultar ninguém, de uma hora para a outra. Outro traço marcante de sua personalidade é o estilo peculiar de escolher as pessoas que trabalham para ele. 

 

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Os colaboradores: Luiz Sandoval, acima, também começou como vendedor e foi o braço-direito de Silvio Santos nos últimos 40 anos. Rafael Palladino (à esq.) comandava o banco PanAmericano, mas não era um homem de mercado. E o banco gerou resultados artartificiais nos últimos anos

“Silvio se cercou de pessoas que são leais a ele e têm histórias de vida parecidas com a dele”, diz o consultor. O presidente do grupo, Luiz Sebastião Sandoval, por exemplo, começou a carreira como engraxate, trabalha há 40 anos com o apresentador e preside o grupo há mais de 20 anos. 

Os parentes de Silvio também estão espalhados em posições estratégicas de suas empresas. Do conselho de administração, fazem parte sua filha Daniela Beyruti, o sobrinho Guilherme Stoliar, o irmão Henrique Abravanel, e o marido da prima de sua mulher, Iris Abravanel, Rafael Palladino. Este último era presidente do banco PanAmericano. 

O mercado financeiro não enxergava em Palladino um executivo preparado para comandar um banco. Formado em educação física pela USP, ele entrou na instituição em 1991 e, por empatia, rapidamente ganhou a confiança de Silvio. Até surgir o rombo de R$ 2,5 bilhões, o apresentador olhava para o PanAmericano como a sua galinha dos ovos de ouro. 

Em 2007, o Citibank tentou comprar o PanAmericano por R$ 1,5 bilhão. Silvio não aceitou vender e argumentou que a instituição era a mais lucrativa dentre todas as empresas de seu grupo. No ano passado, porém, o apresentador topou negociar com a Caixa Econômica Federal. 

No processo de compra, o banco estatal não identificou nenhuma irregularidade e muito menos Silvio desconfiou que algo estava errado. Ele acreditava piamente nos vistosos balanços inflados por Palladino e pelo diretor financeiro, Wilson Roberto Aro, que antes de ser demitidos blindaram seus patrimônios para não perder seu dinheiro. 

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Os correntistas, por sua vez, apostavam no banco que tinha como sócios uma das pessoas mais famosas do País e a própria Caixa. Mais: enquanto o CDB do PanAmericano rendia 108% dos juros de mercado, algo como 11,6% ao ano, em um banco como o Bradesco e o Itaú, ele obteria 92% do CDI, cerca de 9,9% ao ano.

Em um primeiro momento, a notícia da situação do banco causou pânico em alguns de seus clientes. Um correntista ouvido por DINHEIRO sacou R$ 1,5 milhão aplicados no CDB quando as notícias começaram a ser veiculadas. Aos poucos, com as garantias dadas por Silvio, o cenário foi melhorando. Na segunda-feira 8, as ações do PanAmericano listadas na Bovespa caíram 4%, na terça-feira 7%, na quarta 30% e, na quinta-feira 11, voltaram a subir, fechando o pregão com uma alta de 4%.

A crise financeira de seu grupo não é a única questão que Silvio de terá de resolver nos próximos anos. Há uma enorme expectativa para saber quem vai sucedê-lo no comando dos negócios. Silvio possui seis filhas de dois casamentos diferentes e ainda não deu pistas nem mostrou interesse em dar início ao processo. “Ele acha que o SBT e tudo o que construiu não vivem sem ele”, diz uma pessoa próxima. No caso de Silvio, criador e criatura, definitivamente, se confundem. 

 

 

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