A maior ameaça a Dilma não está na oposição, mas na figura de Michel Temer:
...com uma bancada parlamentar e um grupo de governadores do PMDB quantitativamente significativos, ainda que dispersos na busca de seus interesses, Temer se mostra um experiente articulador.
moglobo.globo.com - Atualizado em 11/06 às 19h49 Gilberto Scofield Jr

Professor de Ética e Filosofia da USP afirma que o vice Michel Temer é hoje o mais forte que o país já teve

11/06 às 19h49 Gilberto Scofield Jr

SÃO PAULO - Para o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo Renato Janine Ribeiro, o problema de articulação política da presidente Dilma não acabou. Ele diz que o vice-presidente Michel Temer - "o mais forte que o Brasil já teve" - fica mais poderoso diante de três mulheres (Dilma incluída) com perfis parecidos: pouco maleáveis para a tarefa de reunir interesses tão dispersos quanto os da base aliada, especialmente com o PT dividido.

O que as mudanças no Ministério dizem sobre o futuro do governo Dilma?

RENATO JANINE RIBEIRO: Apesar de a presidente ter se livrado de Palocci - que de ativo do governo virou um passivo -, os últimos movimentos políticos estão muito desencontrados para se garantir que a questão da falta de articulação política, subproduto da saída de Palocci, está resolvida. Tanto Ideli quanto Gleisi têm perfis parecidos com o de Dilma. As trajetórias delas mostram mulheres com pouca flexibilidade e pouca malícia para lidar com astros políticos tradicionais, que se movimentam de forma muito solta, o que não é bom para o governo. Nem a base aliada conhece a ministra Gleisi Hoffmann, e Ideli é criticada até no PT. Parece que a articulação política tem que ficar mesmo nas mãos de Dilma. Mas a deficiência central continua a mesma.

Qual a deficiência central?

RIBEIRO: A maior ameaça a Dilma não está na oposição, mas na figura de Michel Temer, o vice-presidente mais poderoso e influente que o Brasil já teve. Ele vem crescendo na capacidade de manter a coesão no saco de gatos que é o PMDB, principal base do governo no Congresso, satisfazendo seus líderes. Mesmo Sarney e Itamar, quando vices, eram inexpressivos, e talvez João Goulart tenha tido importância no tempo em que foi vice de JK. Mas com uma bancada parlamentar e um grupo de governadores do PMDB quantitativamente significativos, ainda que dispersos na busca de seus interesses, Temer se mostra um experiente articulador. Administrar a base é um ponto fraco do governo Dilma, com um agravante: não ouço a presidente tentando convencer a população sobre o que ela acha que são as prioridades do Brasil. É fundamental para neutralizar a pressão do Congresso.

'A saída é ela assumir o papel de formuladora'

O governo tem um problema de comunicação?

RIBEIRO: Lula e Fernando Henrique, cada qual a seu modo, neutralizaram a dependência do Congresso ao conseguirem convencer diretamente a população da conveniência de suas políticas: no caso de FH, a estabilização econômica, a responsabilidade fiscal e o tamanho do Estado; e, no caso de Lula, a inclusão social com ganhos de renda e as vantagens do alinhamento Sul-Sul. Os dois eram capazes de fazer uma articulação política além do Parlamento, envolvendo sociedade e movimentos sociais e convencendo-os de que suas propostas eram úteis e convenientes ao país. É um trabalho de comunicação incrível. A atuação presidencial hoje é tanto política quanto midiática.

A presidente não faz isso?

RIBEIRO: Este é o problema dos chefes gestores, definição na qual se inclui o ex-candidato José Serra: alguém que faz as coisas acontecerem. É pouco porque não traz em si uma definição política. O risco do líder gerente é que ele abre um espaço de articulação política preenchido por terceiros. Como vem fazendo o Temer, que entrou em choque com Palocci desde o início do governo Dilma. O vice pode ser isolado, não demitido. Temer conseguiu reunir peemedebistas contra a Dilma na votação do Código Florestal e a favor do governo na votação do salário mínimo. Tudo fica pior num momento em que o próprio PT se encontra tão dividido.

Qual seria a saída?

RIBEIRO: A saída é Dilma assumir o papel de formuladora política e se sobrepor a um vice poderoso se dirigindo à sociedade. Nem chega a ser difícil diante de um governo de continuidade, mas todo mundo percebeu que muitos programas do governo Lula precisam de ajustes. Quando se percebe que um beneficiado do programa ProUni anda de carro importado, é ruim. Falta a presidente assumir um projeto de nova utopia. A discussão política hoje é fraca, voltada a um discurso de moralização que não se materializa.

Qual a consequência disso?

RIBEIRO: A consequência é que a persona política da presidente cedeu lugar à persona biológica quando se fala de Dilma Rousseff. Antes do escândalo Palocci, a discussão girava em torno da saúde da presidente. O tema é importante, mas não pode ser a grande discussão do país e só é assim, dado que a saúde dela vai bem, porque sua persona política não tem relevância.

E como fica a oposição?

RIBEIRO: Falar sobre fragilidade da oposição é pouco. Estão muito perdidos. O líder mais expressivo do PSDB, o senador Aécio Neves, não parece capaz de liderar uma bancada incapaz de aproveitar o momento em que o ex-presidente Fernando Henrique parece se aproximar dos jovens e insiste em alianças com setores conservadores de olho no eleitorado evangélico e carismático. Votou maciçamente por esta excrescência que é a reforma do Código Florestal, se afastando dos eleitores verdes.

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